Executivo e engenheiro analisou o impacto das mudanças tecnológicas, o colapso dos modelos tradicionais e o novo papel de Rádio e TV em um ecossistema fragmentado e dominado pelo usuário
Ronnaldh Oliveira via SIGNIS Brasil
A terceira conferência da V Assembleia Ordinária da SIGNIS Brasil trouxe uma análise sobre o futuro dos meios de comunicação. Quem conduziu a reflexão foi o executivo e engenheiro Roberto Franco, que abordou o tema “Do Rádio e TV para a Comunicação Centrada no Usuário: como manter relevância num mundo BANI e fragmentado”. A fala provocou os participantes a repensarem não apenas tecnologias e formatos, mas o próprio sentido da missão comunicacional em um contexto de rápidas transformações sociais e culturais.
Logo no início, Franco destacou que “o mundo mudou e mudou rápido demais”, lembrando que empresas e tecnologias têm ciclos cada vez mais curtos, enquanto modelos econômicos e antropológicos considerados estáveis há poucas décadas enfrentam hoje sinais claros de esgotamento. Ele citou o conceito de “modernidade líquida” de Bauman, afirmando que vivemos algo ainda mais volátil: um cenário “gasoso”, sem formas fixas e com baixa previsibilidade.
O palestrante explicou que a lógica do mundo VUCA: volátil, incerto, complexo e ambíguo, já não é suficiente para explicar os desafios contemporâneos. Em seu lugar, ganha força o termo BANI, marcado pela fragilidade, ansiedade, não linearidade e incompreensão. No Brasil, acrescentou, esse cenário se traduz na “muvuca” cotidiana que molda comportamentos, preferências e expectativas do público.
Tomada de decisões em ambientes incertos
Durante a exposição, Franco apresentou o framework Cynefin como ferramenta essencial para a tomada de decisões em ambientes incertos. Segundo ele, vivemos predominantemente no campo da complexidade, onde não existem manuais prontos e só a experimentação permite encontrar respostas adequadas. “É preciso testar, aprender e ajustar. Quem espera segurança total antes de agir, fica para trás”, afirmou.
Ao falar dos obstáculos à inovação nas organizações de mídia, Franco citou quatro bloqueios recorrentes: medo do desconhecido, medo de falhar, arrogância do conhecimento e a busca por respostas rápidas para problemas complexos. Para ele, veículos que insistem em repetir fórmulas antigas tendem a perder relevância diante de um público mais exigente e com maior autonomia de escolha.

Olhar para as necessidades profundas
A conferência ganhou um tom provocativo quando o palestrante afirmou: “Você não faz rádio. Você não faz TV.” Para Franco, a missão dos comunicadores não está no meio técnico que utilizam, mas nas necessidades humanas profundas que são chamadas a preencher: informar, acompanhar, acolher, entreter, criar pertencimento e oferecer sentido. “Se Jesus estivesse entre nós hoje, sua rede seria a internet inteira. O meio é secundário; a missão é o que importa”, disse.
Inspirado no conceito de Jobs to be Done, de Clayton Christensen, Franco explicou que as pessoas não “consomem” rádio ou TV, mas contratam experiências: companhia, apoio emocional, ancoragem intelectual, conexão com a comunidade. Recuperou ainda pesquisas que mostram o papel afetivo desses meios, rádio como “amigo fiel” e TV como “membro da família”, e afirmou que, em um mundo marcado pelo caos e pela dispersão, essa função simbólica se torna ainda mais valiosa.
O usuário como centro
O palestrante também destacou que o mapa do poder na comunicação mudou radicalmente. Embora as Big Techs continuem dominantes, mídias tradicionais não desapareceram, mas precisam entender que o usuário é hoje o verdadeiro centro do ecossistema. Com o celular na mão, ele decide o que consome, quando e de que maneira. “A era do gatekeeper acabou. A fidelidade despencou. Quem não ouvir o usuário ficará falando sozinho.”
Franco ressaltou ainda as diferenças geracionais no consumo de mídia. Enquanto Boomers e parte da Geração X cresceram com comunicação de massa, Millennials já nasceram conectados. A Geração Z e a Alpha, por sua vez, são nativas de TikTok, algoritmos e hiperconectividade. Para ele, se as organizações continuarem fazendo apenas o que sempre fizeram, perderão sua relevância entre os mais jovens, que já são maioria no planeta.
Como caminhos para manter ou reconquistar relevância, Franco defendeu a necessidade de abandonar a “miopia corporativa”, adotar o papel de curadores confiáveis, orquestrar conteúdos em diferentes plataformas, cultivar foco radical no usuário, experimentar sem medo e priorizar a economia da afinidade em vez de métricas de vaidade. Exemplos de práticas bem-sucedidas foram apresentados, como projetos audiovisuais cocriados com o público e produções que incorporam a voz de comunidades digitais na construção de narrativas.
Encerrando a conferência, Franco evocou a frase de Alvin Toffler: “Os analfabetos do século XXI não serão os que não sabem ler e escrever, mas os que não sabem aprender, desaprender e reaprender.” Para ele, nenhuma tecnologia será capaz de salvar a comunicação, ou a humanidade, se o ser humano continuar perdido de si mesmo. “O futuro pertencerá a quem souber usar tecnologia para tocar o coração, gerar sentido e transformar vidas”, concluiu.
A V Assembleia Ordinária da SIGNIS Brasil segue com outras conferências, debates e mesas que buscam fortalecer a missão dos meios católicos em um país em rápida transformação.

